
Três longos anos se passaram. Agora, a sorrir, pois o sol nascerá.
Nos vemos no Rio, em Madrid ou em qualquer outro lugar que a imaginação nos possa colocar.
Generación 18, um forte abraço e até logo!
sem mais palavras,
Daniel Tavares.
Aprendendo cinema em Cuba. Aprendendo cinema. Aprendendo Cuba. Aprendendo.
Daniel Tavares, brasileiro, 25 anos, roteirista, graduado da 18ª geração da EICTV, la Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de Los Baños, Cuba. Escrevendo e lidando com a saudade, seja ela em Cuba, no Rio, em Madrid ou em qualquer lugar que se permita seguir echando pa'lante.
EMAILS em ydtavares@gmail.com

Atenção: este post pode ser verdadeiramente interminável. Que seja por sua própria conta e risco, ok?
Deste jeito, em alto contraste com a primeira metade do segundo ano (o mar de rosas de setembro a dezembro de 2007), digamos que o primeiro semestre de 2008 não esteve pra brincadeira. Após uma bateria de bons talleres direcionados à concepção de curtas-metragens, os resultados finais dos trabalhos práticos ficaram longe do satisfatório. No entanto, aprender também significa botar a cara a tapa e admitir levar um ferro. ¡Ein must zein!
O conceito acadêmico era simples. Como trabalho final de segundo ano, cada diretor, como chefe de equipe, deve dirigir um curta-metragem de ficção de 10 minutos. O projeto, no entanto, também engloba as demais funções acadêmicas da escola, isto é, a história é concebida e escrita por um roteirista, produzida por um produtor, fotografada por um fotógrafo, o som dirigido por um sonidista e o filme editado por um editor, todos já metidos em suas devidas especializações. As regras são pesadas e os limites de produção um tanto quanto complicados. Os curtas, realizados em formato de vídeo, deveriam ser rodados em um perímetro máximo de sete quilômetros al redor da escola, o orçamento geral não poderia ultrapassar os 300 CUCs (algo em torno de 500 reais), a história deveria ser narrativa e convencional, filmada em apenas três dias de rodagem, num máximo de oito planos por dia, obrigatoriedade de diálogos e de cenas diurnas e noturnas, internas e externas, e por fim, o material bruto não poderia exceder os sessenta minutos, ou seja, uma fita mini-dv. Uma brincadeira de crianças querendo ser grandes.
Soma-se a isto o fato das cátedras não possuírem um diálogo muito aberto, o que deu lugar a um festival de mal entendidos, disse-me-disses, equívocos e reparos de última hora. De maneira geral, um trabalho que mais serve de processo de aprendizagem do que pela qualidade do seu resultado. E assim, dos oito trabalhos realizados, apenas dois conseguiram um resultado considerado bom. Outros quatro conseguiram uma coisinha ou outra, no passo que outros dois tiveram um resultado catastrófico. Com participação em dois projetos, me incluo no segundo e no terceiro bloco. E não comentaria com um pedante “infelizmente”, se não com um incisivo “merecimento”: é parte de um processo, e ademais, um exercício acadêmico. Sobretudo, um exercício de humildade, num meio onde muitas vezes arte se confunde com vaidade, num meio repleto de egocentrismos onde os supostos gênios abundam. Como diz um grande professor de roteiro nosso, “afinal, o cinema não se trata de salvar vidas, essa é a verdade, assim que alto lá, baixemos a bola e pés no chão”. Taí.
Proeminente roteirista chileno, que tem no currículo filmes interessantes como “En la Cama” (Matías Bize, 2006), Julito é todo um personagem. Munido de suas teorias etológicas e biossistêmicas aplicadas ao roteiro, o chileno foi responsável por um dos melhores e mais divertidos cursos que já tivemos na escuela. Prático, seu taller de “desenvolvimento de idéias” foi o pontapé inicial nos projetos de pré-teses.
Sempre vestida como uma veterinária (seria lidar com roteiristas o mesmo que lidar com animais?), e rodeada por todos os oito cachorros (de verdade) da escola, Isabel não media as palavras na hora de disparar seus mais sinceros comentários. A dois de meus companheiros, Pajarito e Pablo, Isabel disse que a última versão do roteiro que lhe haviam entregado “era a pior coisa que havia lido na vida”.
A primeira tentativa de história, intitulada Erase uma vez en Malanga (“Era uma vez em Malanga”), tratava da saga de um forasteiro meio bruto, que movido pela vingança, chegava a um povoado perdido no interior de Cuba a bordo de um bicitaxi, acompanhado de seu “ajudante”, um homem amarrado e encapuzado, com um aviso pendurado no pescoço que dizia “Estou sendo procurado vivo ou morto”. Assim, após limpar o vilarejo em busca do xerife local, a quem acusa ser o responsável pela morte de seus pais quando criança, o forasteiro, enfrentando-se a capatazes idosos, a um bartender surdo e a uma traidora femme-fatale, finalmente fica cara-a-cara com seu algoz. No entanto, na hora do acerto de contas, descobre que se equivocou de região, resultando que o xerife não era a pessoa que realmente buscava. Pede desculpas e vai embora.
No entanto, o protótipo de história não pareceu agradar a Gustavo, a quem, apesar do bom trabalho de tramas, lhe incomodava o desfecho, dizendo tratar-se de um relato que simplesmente se encaminhava para a piada. Assim que já atrasado com relação aos demais projetos, voltei a partir do zero, atendendo aos pedidos do diretor por uma história com mais subtexto. Contra o relógio, após semanas marcadas pela insegurança e pela inquietude, cheguei a “ser internado” na cátedra de roteiro, confinado a um escritório de onde só poderia sair com o roteiro quase finalizado.
Assim que aos 40 do segundo tempo, finalmente consegui chegar a uma história mais ou menos convincente, que parecia agradar a todas as partes. Levava o título de “El Último de los Forajidos”.
Argumento: No pequeno vilarejo camponês, a presença de um mítico e velho pistoleiro se converte em atração turística local. Reconhecido e explorado como “o último dos grandes pistoleiros ainda vivo”, o velho, de 70 anos de idade, recebe visitas de todo o tipo de gente: desde um casal em um passeio romântico a uma família num programa de domingo. Deprimido e resignado a ganhar a vida de maneira degradante, o último dos foragidos remói as memórias de um destino marcado por ironias traumatizantes.
Quando moleque, é resgatado por um grupo de bandoleiros que assaltavam uma caravana; quando jovem, é treinado pra ser um hábil pistoleiro, no entanto, sua aparente incapacidade para o ofício o faz reprovar nas provas de seu mentor; quando adulto, a tragédia lhe bate à porta ao ser responsável pela morte do chefe a quem deveria fazer cobertura, resultado de sua insuperável incapacidade de apertar o gatilho. Atual atração de um parque temático, o velho pistoleiro, ao terminar mais uma jornada de trabalho, se dirige ao bar decidido a se suicidar. Leva a pistola à cabeça e dispara, mas a tentativa é em vão. Sua incapacidade para matar chega aos limites. A parede do bar, repleta de marcas de balas, revela que esta foi apenas a última de inúmeras tentativas frustradas.
O resultado do curta-metragem até foi aceitável, tamanha a dificuldade de sua realização. Os problemas, muitos deles gerados inclusive pela complexidade de produção de um roteiro que não se preocupou com os limites (aqui cabe uma meia-culpa), fizeram a diferença no final. Uma seqüência chave terminou por ser completamente sacrificada, comprometendo dramaticamente o resultado final do trabalho. Mas voilá, ao menos o alto grau de dificuldade do projeto permitiu um alto grau de aprendizagem à equipe.
A história originalmente concebida para ser dirigida pela brasileira Janaína Marques era outra. Chamava-se “Inundación” (Inundação) e contava a história de uma menina de oito anos que respondia à violência doméstica da mãe com um amor cego e inquebrantável, enquanto a casa, miserável, ia-se inundando pouco a pouco. Um projeto polêmico tanto do ponto de vista narrativo quanto da produção, e que acabou sendo vetado pela direção da escola.
Resumindo a ópera, um roteiro realmente fraco, devo admitir. Depois, eu e Jennifer nos demos conta de que nosso erro fundamental (entre tantos outros) foi propor a concepção da história através de um road-movie, um gênero completamente equivocado para um conto desse porte em um curta-metragem.
Honrando com perfeição as tradições da famigerada ESISG, Escola Superior de Influência Subversiva do Grajaú, o agente Paschoalopoulos penetrou clandestinamente na xavásquia ilha caribenha de maneira discretíssima. Exatos sete dias após sua chegada, o mundo acompanhou de olhos arregalados as notícias vindas de Cuba: a renúncia do comandante-em-chefe Fidel Castro após quase 50 anos no poder.
Não satisfeito, Victor não apenas se limitou às ações políticas. Escondido na inacessível EICTV, a famosa Escuela de Cine de San Antonio de los Baños, Paschoalopoulos ainda financiou a formação de um grupo internacional de pagode. O “Grupo Zabomba e as Granadetes”, composto por três brasileiros, um uruguaio, um cubano e um hondurenho, fez grande sucesso no Rapidito, não tanto por sua qualidade musical e sim pelo rebolado alucinante da dançarina mexicana Amandita García, capaz de despertar em cada homem “seus instintos mais primitivos”.
Visivelmente com ambições terroristas, Paschoal foi alvo de três tentativas de envenenamento, onde o serviço secreto cubano tentou liquidá-lo oferecendo-lhe rum de qualidade a preço de 51, em meio ao rebuliço desnorteante da cubanía ferina. Quase destruído pelo poder da mescla de rum Legendário com Guayabita del Pinar, bocaditos de queijo e presunto com arroz congrí, e puros habanos com o futebol extremamente violento praticado por tecelões selvagens, Victor Paschoal pode bater no peito e orgulhar-se como Júlio César. “Vini, vidi, vinci!”.
Dissidência revolucionária (como não podia deixar de ser) do futebol, um esporte “excessivamente imperialista e capitalista”, o futebol cubano é uma espécie de variação agressivo-socialista do jogo mais popular do mundo. Nesta modalidade, onde as linhas laterais não existem se não há nenhum acidente geográfico próximo reconhecível, as patadas e as entradas desleais são “coisas do jogo”, igualmente repartidas entre todos. No entanto, a característica que mais chama a atenção no futebol cubano é a gritaria generalizada. Aqui não há reclamações com o juiz, uma vez que o juiz, “instrumento imperialista dos direitos humanos e dos interesses de uma minoria”, é simplesmente ignorado.
Pasmem: os agressivos berros, insultos, discussões e pontapés, devidamente socializados e praticados entre todos os jogadores, só podem ser deflagrados entre jogadores de uma mesma equipe (!). Mais do que jogam, os cubanos discutem e brigam entre eles mesmos - obviamente, desde quando estão no mesmo time. O futebol cubano é uma espécie de mesa-redonda (o esporte número dois do país) misturada com tele catch, filme dublado e algo do futebol original. Não há cartões nem há lógica nas substituições: um jogador que sai não é necessariamente substituído por outro (dependendo do placar do jogo, três jogadores podem entrar substituindo a um, se a partida necessita “ser equilibrada”, sem que ninguém da equipe adversária seja consultada).
Não há área e como não há linhas laterais, o escanteio é batido de um lugar a ser escolhido pelo próprio cobrador, desde que o goleiro adversário não irrompa em insultos violentos aos seus próprios zagueiros por não reclamarem sobre o córner (vejam que não há discussão direta entre os jogadores rivais; o que existe é uma intensa discussão entre jogadores do mesmo time sobre o fato de ninguém discutir com os jogadores rivais). Outra particularidade do sistema vanguardista do futebol cubano é a limitação climática das durações das partidas: uma partida só termina quando chove ou quando não há mais luz natural (característica devidamente assimilada dos tradicionais torneios de tênis). No entanto, na maioria das vezes, um jogo de futebol cubano costuma terminar quando os jogadores do mesmo time brigam entre si e decidem ir embora, putos uns com os outros. Em suma, o futebol cubano é a verdadeira epopéia do futebol universitário.
Atualmente, as estatísticas do confronto revelam o equilíbrio de tal rivalidade: seis vitórias para cada lado. Jogamos onze contra onze em um campo de dimensões oficiais (na verdade, a distancia entre as laterais é, de fato, 40% maior do que as dimensões do Maracanã: o campo da eictv é um campo quadrado, literalmente, e não retangular – viva o futebol cubano!). São geralmente dois tempos de 45 minutos, mas isso se a chuva ou a noite não caírem antes, é claro.
O derby é um confronto clássico: Cuba vs. Antígua e Barbuda (um país formado por umas ilhotas no meio do Caribe com pouco mais de dez mil habitantes). Ok, nem tão clássico assim, mas quem se importa? - quem esteve neste fim de tarde em Havana sabe a que me refiro: estava rolando uma tremenda salseira no Clube Tropicana, ao lado do “detalhe” em que se transformou o estádio de futebol cubano.
Sim, senhores. Após pagar dois pesos cubanos na entrada pro estádio - cerca de quinze centavos de real - o que testemunhamos foi algo como uma metáfora ideal de Cuba (nota pro detalhe do ingresso: era um pedaço do verso de algum memorando).
O estádio, completamente vazio, nada mais que o figurante de uma tarde infernal no estabelecimento vizinho: a salsa comia solta no Tropicana, de onde podíamos vislumbrar, através das grades que separavam o estádio do clube, um formigueiro humano que exalava sexo e salsa ao vivo, numa cubanía entorpecente e alucinante.
Desde o início da partida até o apito final, duas horas da mais pura tortura futebolística ao som de salsa da boa, certamente numa das piores demonstrações de futebol que já pude acompanhar em toda minha vida.
Chamo a atenção para o solitário hooligan cubano, que insultava incessantemente o técnico alemão de Cuba e fazia piada com dois dos reservas cubanos (que desde o banco retribuíam as piadas, o que me fez suspeitar que fossem amigos). De maneira absurda, também saliento para a presença da torcida adversária, composta por duas mulheres com bandeirinhas antíguabarbudenses, alvo de fortes insultos por parte do hooligan.
Nota também pro público pagante, que provavelmente chegou a uma centena de pessoas, metade das quais crianças e idosos. A partida terminou 4 a 0 pra Cuba, que como já havia ganhado a partida de ida por 2 a 1, passou para a próxima fase das Eliminatórias com certa tranqüilidade. O jogo acabou e a torcida se foi, mas a salsa no Tropicana (com um público trinta vezes maior que a do estádio) continuou comendo solta noite adentro.
Eu e Rodrigo embarcávamos para Madrid, numa passagem aérea que acabou saindo 40% mais barata do que hoje custa uma passagem Havana - São Paulo. Assim que o recesso de verão de 2008 não tinha melhor endereço: as recônditas terras zoropéias.
Ilustre madrilenho, Pablito terminou sendo um senhor anfitrião para todos nós, levando-nos para conhecer a capital no que fosse possível para uma estadia bastante curta, já que íamos e vínhamos de Torrelodones todos os dias (Pablo vive num aprazível povoado a 30 km. de Madrid). A cada dia, uma odisséia do bem viver, em uma terra semi-árida que é o elixir do “amalgamerismo” em seu sentido mais amplo.
Nos seis dias que estivemos em Madrid, de tudo um pouco: desde a tradicional feira domingueira do bairro de El Rastro, entre suas ladeiras e seus bares apinhados de gente (tomando cerveja e cuspindo caroços de azeitonas), ao famoso Museu do Prado, com uma das maiores coleções artísticas do mundo. Atravessando a Gran Via de Colón, desde a intensa vida noturna dos bairros de Malasaña e Chueca (a famosa movida madrileña) às praças históricas de Plaza Mayor e La Puerta del Sol.
A verdade é que Madrid é monumental. Uma cidade extremamente ordenada, onde os serviços funcionam quase que a perfeição. Multicultural e cosmopolita, Madrid é um exemplo de civilidade e de bem-estar. Desde os bairros de imigrantes de Santa Ana, La Latina e Lavapies às praças, ruelas e ladeiras por entre as minúsculas varandas dos prédios históricos do Centro, Madrid é surpreendente.
De bar em bar e debaixo de um sol imponente, os madrilenhos encontram refúgio nas cañas (chopp) geladas e nas tapas (petiscos), insumos indispensáveis, entre outros, a uma verdadeira experiência espanhola.
Outro ponto interessante da capital ibérica é o alto nível de suas mulheres. Transbordam beleza e sensualidade, num nível bastante diferente da cubana (que também é excelente, afirme-se). E as espanholinhas seriam ainda mais, não fossem as franjas anos oitenta (tipo carinha de cachorro) que teimam em ditar a moda entre o que há de melhor no requebrar flamenco.
Após recolher David Bucanero Alves no aeroporto de Madrid, deixamos a capital espanhola em direção ao sul do país, à mítica região de Al – Andaluz, onde o inusitado e o absurdo tem presenças fortes. A bordo do “Dragão Fumeta”, uma trepidante furgoneta branca, eu, Rodrigo, David, Janaína e Pablo cruzamos meio país até a cidade histórica de Granada, rota de nosso caminho até o Marrocos.
Recapturada pelos espanhóis em 1492, o antigo feudo mouro de Granada respira história. Desde suas pequenas vielas que nos fazem lembrar Santa Teresa, dorme uma cidade grande e moderna. Do alto de uma de suas colinas, se pode vislumbrar a imponente Alhambra, fortificada Medina árabe que era o centro do domínio andaluz até o século XV, assim como as ruínas do que um dia foi a pedra no sapato dos reis de Castilla.
A vida noturna de Granada também é agitada, e a juventude bate perna pelas ruas e praças das colinas históricas. A influência árabe ainda é marcante na região, e nada melhor do que passar a noite num bazar ou numa das tradicionais teterías (casas de chá) locais, para um forte e autêntico chá árabe e uma carregada pipa de narguilé.
Mas absurda mesmo foi a noite que passamos na pequena comunidade agrícola de El Padul, à uma hora e meia de Granada. De visita ao também eictviano José Manuel, amigo andaluz que é meu vizinho de porta na Escuela (214 - 215), chegamos a sua cidade natal para o “Cortirock”, tradicional show de rock da comunidade camponesa que ele organiza junto familiares e amigos em seu humilde sítio.
Imaginem isso: lua cheia aos pés da Sierra Nevada, quatro geladeiras abarrotadas de cerveja local, churrasquinho de gato a todo vapor e entre outras coisas, cinqüenta jovens agricultores em estado catártico uivando ao som de puro heavy metal espanhol.
De Granada para Cádiz, extremo sul da Espanha que abraça o Mediterrâneo e o Atlântico. A aprazível cidade praiana de Cádiz, maior porta de entrada do ouro e da prata da América Espanhola nos séculos passados, é uma espécie de Cabo Frio Espanhol, porém mais garbosa.
De Cádiz para Algeciras em duas horas, cidade portuária que é o flanco espanhol no Mediterrâneo. Era hora de deixar o carro e pegar o navio, cruzando o estreito de Gibraltar rumo à África.
Após cruzar o estreito de Gibraltar, que separa a Europa da África, em três horas de navio, aportamos no Marrocos, terra que tem a maior quantidade de bandeiras por quilômetro quadrado, numa poluição visual urbana que inclui a proliferação exagerada das fotos do Rei de Marrocos, um jovem monarca playboy que sempre está de óculos escuros Ray-Ban.
Fato é que o Marrocos é um país espetacular. É uma espécie de Bolívia Islâmica, e isso já seria suficiente síntese de nossa experiência pelo norte da África. No Marrocos, “terceiro mundo selvagem”, como diz o Rodrigo, nos sentimos mais em casa, como peixes dentro do aquário, onde os níveis de ordem cívica e funcionalidade pública são compatíveis aos da América Latina. Noves fora, a experiência de se estar num país muçulmano, com outras regras e premissas, lógicas e costumes, é uma experiência verdadeiramente grandiosa.
Chefchouen é um vilarejo semi-árido que vive do turismo. No entanto, para nossa surpresa, a exploração turística do local não constitui atividade predatória, pelo contrário, é justamente o que possibilita o povoado a manter suas tradições e cultura, sua dinâmica social e econômica. Conservando um modo de vida simples e respeitável, o vilarejo de Chefchouen é uma explosão de sucesso.
Desde as ruelas escondidas da Medina aos montes áridos do Rif, desde os cânticos religiosos das mesquitas a uma tradicional romaria de casamento, onde a noiva é carregada incógnita em uma gaiola por todo o povoado em meio a uma festiva algazarra, desde a pastilha marroquina, prato de uma culinária local exuberante aos podrões de comida rápida na rua principal; desde o olhar curioso e produzido que emana do véu das burkas das lindas mulheres árabes aos vendedores de haxixe que perseguem os turistas entre as ladeiras da cidade alta.

Definitivamente um lugar para se explorar com muito mais tempo: um grande país que certamente vale e merece uma segunda visita, seja cruzando a cordilheira mediterrânea, seja rumando ao sul em direção às capitais e ao Saara - região que, ao menos para mim, fica para a próxima e entra no rol das prioridades.
O Marrocos é o que há, nego! E acabou sendo – ironicamente – um dos pontos altos de uma viagem concebida pela Europa. Um detalhe que entrou na rota a partir de uma curiosidade e que ficará marcado como um golaço mochileiro.
Atenção para um detalhe absurdamente super importante: conheci no navio que fazia a rota Algeciras-Tanger a um marroquino que havia vivido dois anos no Rio de Janeiro (e que se enrolou na hora de responder a minha indiscreta pergunta sobre o que fazia lá – certamente atividades ilícitas), e que sem que eu dissesse nada, me perguntou como ia o Vascão (!). Temos em vídeo o depoimento emocionado do marroquino dizendo que “o Vasco é o maior time do mundo, cara!”. É Vascão rumo a Tóquio, meu amigo! Ou melhor, a Marrakesh...
Em Lisboa fomos recebidos por Renata Pimenta, a Renatinha, a quem conhecemos na Escuela quando veio fazer um taller em 2007. Instalados em seu pequeno – porém bem localizado – apartamento no Centro, passamos um total de cinco dias na capital portuguesa, o suficiente pra descobrir cantos escondidos da cidade e atrações turísticas.
Desde as ladeiras históricas de uma cidade encravada entre colinas em azulejos, aos miradores de onde se pode contemplar o Rio Tejo; uma cidade agradável e pacífica, que se move em um ritmo lento e despreocupado. Seja perambulando pela Torre de Belém ou pelos teleféricos da Cidade Nova, seja por entre os casarios e vielas de uma sexta-feira no Baixo Chiado, a Lapa lusitana.
No entanto, chama um pouco a atenção em Portugal o rancor dos portugueses em relação aos vizinhos espanhóis. Com muito orgulho, os portugueses tendem a proclamar que sempre foram um povo em resistência, no entanto, o orgulho nos tempos atuais dá lugar a um certo ressentimento, onde Portugal parece ser nada mais que um detalhe na Península Ibérica. Mal economicamente e com problemas sociais mais agudos do que a Espanha, os portugueses se lamentam e se queixam de tudo: a melancolia é uma espécie de prato tradicional da culinária lusa, servido junto a um bom vinho verde e bolinhos de bacalhau.
Ser imigrante ilegal brasileiro em Portugal não é nada fácil. Em nossas andanças pela capital lusitana, encontramos a vários compatriotas que lutam ingloriamente por um punhado de euros. Como a economia portuguesa vai mal das pernas, os imigrantes naturalmente tornaram-se bodes expiatórios (como termina acontecendo em qualquer país do mundo que receba muitos imigrantes) na sabedoria popular. Ainda que não fôssemos imigrantes – e sim malditos estudantes cubanos meio turistas de baixa-renda reprimidos – pudemos sentir na pele um pouco do rancor e dos preconceitos que se revelam contra os brasileiros na terrinha. Como bem observou o Guilherme num e-mail, quando estudava em Lisboa, “ao contrário da Espanha, Portugal parece que levou uma rasteira da história há quatrocentos anos e nunca conseguiu se levantar”.
Noves fora, vale ressaltar o esforço e a dedicação sobre-humana com a qual fomos recebidos pela nossa grande anfitriã, sempre disposta a fazer com que Lisboa ficasse devidamente gravada em nossas memórias. Aqui fica um agradecimento enorme a essa pequenina pessoa que nos acolheu e que foi determinante em nosso trip pela capital lusa, ainda que tenha empatado a foda da galera com duas alemãs maravilhosas. Valeu, Renatinha! Ora pois... agora, vaza!
Grande Personagem: a própria Renatinha Pimenta, sempre intempestiva, capaz de receber-nos extremamente bem em Lisboa, e, ao mesmo tempo, sepultar os “instintos mais primitivos” dos três brasucas ao destratar ferozmente duas tetéias alemãs absurdamente lindas e gostosas que pareciam estar pra jogo.
Praga era nossa primeira escala sem referentes locais. Do aeroporto de Ruzyne, um ônibus para o metrô e daí para a Starometskà, o centro histórico de Praga. Sair do metrô e desembocar num lugar deste porte foi mais ou menos assim: duas pessoas deslumbradas, cada uma com seu mochilão nas costas, paradas, rindo sem saber por que, olhando o que nos parecia difícil de assimilar – aquela cidade, espetacular na sua combinação anacrônica do antigo e do novo, nos parecia absurdamente inverossímil. De encher os olhos. Afinal, depois de ter visto os filmes de Vera Chytilova, Miklos Jancso e Bohdan Slama, e imediatamente após ler “A Insuportável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, conhecer Praga resultava em uma experiência grandiosa.
Fim de tarde. Após nos instalarmos num albergue de excelente localização e custo-benefício, próximos a Starometskà, saímos por algumas cervejas tchecas e, obviamente, também por tchecas tchecas. Eufóricos, avistamos a um grupo de torcedores bêbados do Sparta de Praga que pareciam estar a caminho de um jogo. Prontamente nos fizemos amigos, e logo fomos convidados a torcer pelo azul-grená do Sparta Praha no Axa Arena. Tratava-se da partida de volta das Eliminatórias para a Copa da Uefa, do grupo “ex-repúblicas invadidas ou massacradas pela União Soviética” ou algo similar, contra um time moldávi (!).
Munidos da melhor cerveja tcheca e de hotdogs de porta de estádio, nos posicionamos ao lado de uma facção de torcedores barrabravas que se auto-intitulavam “os ultra-hooligans de Praga”. Em duas intermináveis horas de tortura futebolística leste-européia, assistimos a nossa segunda pior partida de futebol profissional ao vivo, com somente nível superior ao tenebroso clássico caribenho Cuba vs Antígua e Barbuda. Final de jogo: Sparta Praha 2 x 0 Tiraspol da Moldávia. Festa na comunidade boleira praguense, e nossos amigos voltaram às suas casas sabe se lá como.
Nos outros quatro dias de nossa estadia em Praga, além de apreciar a beleza exótica e a bonequice das mulheres tchecas (lindas!), um giro pela história, pelos bares, praças históricas, castelos e boates da capital. Das melhores cervejas originais da Europa ao largo do suntuoso rio Vltava e suas pontes e torres ao impressionante Castelo de Praga, passando pela dança dos apóstolos e da caveirinha às sete da noite na catedral onde está o famoso relógio astronômico do século XVII. Desde a instalação de arte que é o Museu da Casa de Franz Kafka ao Museu do Comunismo, hoje ironicamente instalado entre um cassino e um Mcdonalds, passando pelo inusitado Museu de Instrumentos de Torturas Medievais, Praga se mostra uma cidade peculiar.
Entre o medievalismo latente, o passado comunista a contragosto e o presente progressista, suas vielas e pontes transbordam toda uma história muito bem conservada. Abrindo caminho pela turba furiosa de turistas que Praga recebe no verão, pudemos sentir a maneira de viver dos tchecos, um povo extremamente singular no centro geográfico da Europa.
O que nos impressionou bastante foi o ressentimento que os tchecos carregam de seu passado comunista, da Primavera de Praga de 68, a ocupação soviética e seu exercício político até a Revolução de Veludo em 89. Quando visitamos a famosa escola de cinema de Praga, a FAMU, uma frase que escapou da diretora acadêmica quando soube que vivíamos em Cuba entregava: “é que temos muita curiosidade em saber como vão as coisas por lá, até porque já passamos por isso e hoje desejamos que esse regime morra imediatamente”.
São nestas pequenas impressões simplistas que se escavam as jóias quando alguém garimpa um pouco além do turismo convencional e sai a conhecer os locais tête-à-tête. Isso pra nem falar da noite no Roxyy, onde o túnti-túnti besuntava as maiores beldades tchecas com excelente cerveja barata e frenesi sem igual. Dá-lhe projeto!
Praga no Super-Trunfo Tabariano:
Grandes Personagens: 1) Petr Schummer, torcedor do Sparta Praha que nos convidou ao jogo pagando nossas entradas e que colocou “os torcedores brasileiros do Sparta” na página inicial do site oficial do clube após o jogo. Gente finíssima e o único dos amigos tchecos que falava inglês, servindo de tradutor, 2) Martin, jovem hooligan amigo do Petr, aproveitando-se da emoção do Rodrigo e extorquindo-lhe duas rodadas de cerveja para todo o grupo, o que lhe acabou saindo três vezes o preço do ingresso, hahahahaha, não posso parar de rir dessa, hahahahaha, se fudeu!
Assim, com o passe na mão e decididos a dar prejuízo à rede européia de trens, decidimos viajar pro lugar mais longe possível que nos permitia o plano. Foi assim que, após cruzar quase todo o território escandinavo por dois dias, entre trens, ônibus e navios conveniados, desembarcamos nos longínquos fiordes da sempre-fria Noruega.
Perto do Pólo Norte, a Noruega é um país que confirma seus estereótipos. Lugar frio de gente fria, Oslo é a menor das capitais européias, e de certa maneira, mais parece a uma capital de província do que a capital de um país. Enfrentando a chuva e o frio característicos do verão norueguês, saímos a conhecer Oslo em apenas um dia, e macacos me mordam de frio se não terá sido o suficiente para conhecê-la. Até certo ponto agradável, a distante Oslo não é para nada uma cidade que ostenta.
Minimalista, o custo alto de vida na Noruega não permite o luxo a seus habitantes e as poucas atrações da cidade podem ser visitadas em apenas um ou dois dias. O turismo não é uma indústria de base no país, e a falta de infra-estrutura ao viajante revela sua não-vocação pra coisa, ainda mais no verão. Afinal, quem no mundo pretende curtir o verão num lugar gelado como a Noruega?
Bem, no que pese o pouco tempo para explorar Oslo, já que tínhamos nossa conexão pra Bergen agendada para a manhã seguinte, valeu o rápido bate-perna pela cidade. Em especial, descobrimos um inusitado e magnífico parque ao oeste da terra de Ibsen, onde as esplêndidas esculturas de um famoso e polêmico artista plástico norueguês definitivamente deixavam Oslo uma cidade mais bonita. Através das peças monolíticas, a odisséia humana retratada desde as lendas escandinavas.
Ao dia seguinte, a postos a bordo de um trem que prometia fazer uma das rotas mais bonitas do mundo. Aliás, era exatamente essa nossa desculpa pra ter ido tão longe, ao norte da Europa menos de dez dias depois de ter saído da África. E não nos equivocamos.
Em uma viagem extremamente confortável, em oito horas por entre os fiordes noruegueses ao som de Sigur Rós, uma das maiores experiências revigorantes que alguém pode ter. Patrimônio natural da humanidade, os fiordes são canyons de caudalosos rios que correm por entre as cadeias de montanhas árticas e nevadas da acidentada geografia norueguesa. De cortar a respiração.
Assim chegamos a Bergen, segunda maior cidade da Noruega, na costa oeste do país, a apenas quatrocentos quilômetros do Círculo Polar Ártico. Uma cidade mais simpática que Oslo, com a vila emergindo diretamente do cais. Região que vive basicamente da indústria pesqueira e do ecoturismo, perambular por Bergen é uma atividade que pode consumir horas.
Desde o grande mercado de peixes ao Castelo de Bergen de um lado, ou à universidade e o Gran Teatro Nacional de outro, Bergen é uma cidade que recebe melhor o visitante do que a capital. As tavernas que abrem ao fim da tarde são o refúgio de locais e visitantes, que voltam às casas apenas quando escurece, lá pelas onze da noite. É que o verão no Ártico faz a noite durar muito pouco, apenas quatro horas, e ainda assim com um forte aspecto azul celeste, não deixando que a cidade realmente se escureça. Pro viajante que tem insônia ou problemas com a claridade, um abraço.
Dois dias depois, de Bergen pra Oslo e daí uma conexão pra Copenhagen, na Dinamarca, passando por esquisitos trens na Suécia onde a adolescência leite-com-pêra sueca tocava o terror nos vagões, pra desespero dos demais passageiros.
Grande Personagem: a amável Tuva, linda loirinha norueguesa de 22 anos que conhecemos em um ônibus sueco indo pra Oslo, que falava português fluente e havia estudado em Belo Horizonte por dois anos. Apelidada de “Tuvalina” no Brasil, a encantadora jovem tinha saudade do pão-de-queijo e era fiel torcedora do Galo.
Desembarcando em Kobenhavn, capital da Coroa dinamarquesa, eu e meu grande amigo Rodrigo Melo, “o fabuloso”, finalmente nos separamos. Após três semanas viajando juntos, já quase havíamos caído na porrada em duas ou três ocasiões, assim que o “cada um por si” veio a calhar em boa hora. Rodrigo seguiu rumo a Berlim e eu resolvi curtir a Dinamarca na companhia da querida amiga Anne Katrine, quem havia acabado de se formar produtora na Escuela de Cuba.
Devidamente instalado na Rua Nörre Alle, num aprazível bairro de classe média dinamarquesa, fui tratado como um hóspede ilustre. A mãe de Anne havia acabado de chegar da Indonésia, assim que nos convidou a um restaurante tradicional em meio a copas e copas das melhores cervejas dinamarquesas, um amálgama. A bordo de duas bicicletas, eu e Anne percorríamos Copenhagen de ponta a ponta, todos os dias.
Aliás, Copenhagen provavelmente é a cidade mais amigável do mundo para os ciclistas. Verde, civilizada, limpa e conscientizada, o saudável trânsito de bicicletas pela cidade é intenso e ordenado. Dentre todas as cidades européias, Copenhagen me pareceu ser o mais próximo a “uma cidade perfeita”, onde tudo, absolutamente tudo funciona bem.
E assim cruzávamos a cidade, desde o porto ao castelo, desde os monumentos vikings às praças em meio aos rios que conformam o arquipélago de Jutland, passando pelos famosos Tivoli Park (original!) e o Rigshospitalet (onde Lars Von Trier gravou sua famosa série de tevê “The Kingdom”). Anne ainda me fez experimentar os deliciosos podrões locais, sempre bem acompanhados a uma infinita variedade de cervejas caseiras deliciosas.
Logo, um passo obrigatório pelo bizarro bairro de Christiania, onde a própria comunidade se auto-declarou independente, um lugar onde as leis e códigos morais são regidos de acordo com a população local. Em realidade, um lugar extraordinário, realmente curioso: porém, nada mais do que uma civilizada comunidade neo-hippie, pseudo-anarco-punk, aberta e tolerante, que hoje luta contra as propostas do governo de desocupação integral. Certamente vale (e muito!) uma visita. E daí pro parque municipal, terminando a tarde de domingo numa impressionante apresentação de ópera do Teatro Real ao ar livre, de graça, para grande público. Essa gente zoropéia é chique pra caralho, asere.
A noite de Copenhagen também vale uma menção honrosa. Saindo com Anne e seus amigos, um giro pela noite da capital, regada de tabernas intimistas e com gente de muita receptividade e bom humor. Comparáveis às tchecas, as dinamarquesas são realmente lindas e não fazem cara feia a uma boa conversa. Quicando de um lugar a outro, até dar no estacionamento de uma espécie de Cobal do Humaitá dinamarquesa (guardadas as devidas proporções), as noites de Copenhagen são assim: hordas de bêbados que de maneira impressionante não perdem a direção de suas bicicletas (a concentração e a habilidade dos bêbados dinamarqueses em manejar uma bicicleta pelas ruas em condições desfavoráveis deveria ser objeto de estudo científico) entre um bar e outro, e que invariavelmente terminam a noite num podrão de kebabs turcos.
Aliás, a comida rápida turca é uma tendência generalizada na Europa: é o esplendor da cultura podrona multinacional que transformará o mundo numa laminada peça de durum kebab. Anotem o que eu digo: depois da ascensão e queda dos chineses, o mundo se curvará ante os turcos e suas irrefutáveis lanchonetes de kebab.
E assim Kobenhavn ficou pra trás depois de quatro dias. Afinal, o dinheiro ia se esgotando, no mesmo passo em que o passe-livre para os trens europeus. Hora de colocar tudo na mochila novamente e rumar pela Europa, desta vez, sozinho. Próxima parada, Berlim. De volta para o segundo tempo na Alemanha.
Metáforas Visuais: 1) A cruz-de-malta que é o símbolo da rede vascaína de transportes fluviais de Copenhagen; 2) A descontraída Parada do Orgulho Gay que desfilou pelo centro da cidade arrastando multidões de dinamarqueses e turistas; 3) Os gigantescos estacionamentos de bicicletas ao longo de toda a cidade.
De volta à Berlim após um primeiro tempo curto de dois dias (nem dez dias seriam suficientes para Berlim!), resolvi dedicar outros três para a capital germânica. Uma das cidades mais interessantes do mundo, encravada entre o peso trágico do passado e a vanguarda cultural contemporânea, é impossível passear pela capital sem levar em conta todos os seus contextos e nuances.
Berlim é uma cidade indelével, uma cidade que não nega sua história e que faz, desde o exercício de sua memória, uma complexa reflexão sobre a capacidade humana de resistência e capitulação, de aprender com as próprias cicatrizes, feridas abertas expostas em ruínas. Entre o perene pesadelo de experimentar na pele a tragédia do poder nazista e o trauma de uma divisão absurda a partir de um muro, Berlim é hoje uma cidade em eterna transformação e autofagia, simbolizada pelos guindastes e andaimes que até hoje reformam a cidade, centro pujante da economia européia.
Instalado em um dos melhores custos-benefícios do planeta, o simpático albergue Helter Skelter (no calcanhar da Friedrichstrasse, no mítico bairro do Mitte), tentar aproveitar o máximo de Berlim em tão pouco tempo resultou em tarefa inglória. Alternando pé e metrô-bala de superfície, um passeio pela famosa avenida central de Unter den Linden.
Desde o histórico Portão de Brandemburgo à Coluna da Vitória, é impressionante contemplar o Monumento ao Soldado Soviético e o famigerado Reichstag, palácio governamental que foi o centro nervoso da história em diversas ocasiões: desde seu misterioso incêndio em 33 que catapultou Hitler ao poder e seu intenso bombardeio no fim da Segunda Guerra. Reconstruído, sua cúpula oferece hoje uma majestosa visão panorâmica de toda a cidade.
Ruínas e construções novas dividem a paisagem, em uma cidade que se transforma numa noite multicultural e multiétnica, cosmopolita por excelência, livre de hipocrisias. Contemplar a torre destruída do Domo de Berlim lhe faz invariavelmente pensar sobre os terríveis bombardeios aéreos de 44 e 45, aos quais estavam submetidos os berlinenses, reféns de um regime fascista em inevitável capitulação.
Uma volta pelo Checkpoint Charlie lhe faz transportar aos tempos da Guerra Fria, onde a cidade, partida em dois territórios, se via convertida na metáfora da bipolarização mundial. Dividida em Berlim Ocidental (sob influencia de zonas americanas, inglesas e francesas no pós-guerra), isolada do resto da República Federativa Alemã (capitalista); e Berlim Oriental (zona de influência soviética), geograficamente imersa e convertida em capital da República Democrática Alemã (comunista); a cidade passou décadas dormindo um sono intranqüilo e incerto. Uma sociedade amputada que desde 1989, com a queda do Muro de Berlim, aprende a cada dia ser um corpo único.
E assim, por entre os monumentos históricos e suas esquinas repletas de cultura e muita (mas muita!) comida turca, percorri Berlim ao lado da simpática norte-americana Ivy, outra solitária mochileira a quem conheci compartindo um quarto no Helter Skelter. No último dia de Berlim, reencontrei a ninguém menos que o doutor David Bucanero Alves, que batia perna na cidade ao lado de seu irmão, Apolo. Junto a mais três brasileiros que conhecemos na rua, rodamos Berlim em busca de um lugar pra ver Brasil x Argentina pela semifinal das Olimpíadas (e pra nossa sorte, sem sucesso). Acho que foi melhor assim.
Mas foi então aí que a Ivy desapareceu, o dia amanheceu e como sempre eu peguei minhas coisas e fui embora: já era hora de botar a mochila nos trilhos e zarpar. Foi assim que Berlim ficou pra trás, e a bordo de um trem-bala, fiz valer meu passe-livre da rede ferroviária européia e parti rumo a Bremem, extremo oeste da Alemanha, próxima à fronteira holandesa.
Na cidade para uma visita relâmpago a uma grande amiga dos tempos da UFRJ, Eliana Pegorim, que atualmente estuda e vive em Bremem, pude percorrer rapidamente o centro histórico da cidade, passando pelo tradicional moinho municipal e pelo “monumento aos bichos cantores”, uma espécie de lenda popular local – tudo isso sem antes, claro, almoçar um sempre rápido kebab turco.
Grandes Personagens: 1) Apolo Bucanero Alves, irmão do legendário David, que mora na Alemanha há sete anos e a quem encontramos em Berlim. Acabou saindo-se um bom guia turístico e, ademais, o cara é irmão do cara e a cara do cara!; 2) A gostosa da Ivy.
A Holanda é um lugar fascinante. Cruzar o país ao meio-dia através da janela de um trem, por onde fazendas de campos baixos e moinhos de vento ficam pra trás a duzentos por hora, resulta ser uma senhora viagem. Roxo de fome e escutando a rádio holandesa em um programa de meio-dia, chego à Amsterdã, uma das cidades mais especiais e enlouquecidas do mundo.
A polêmica capital holandesa é um lugar de muita cultura, beleza, farândulas e particularmente, excessos. Completamente abarrotada de turistas em agosto, em sua maioria impelidos pelo furor da legalização da prostituição e da maconha no país, Amsterdã equilibra caos e tranqüilidade, cultura e subversão, luxo e decadência, tradição e vanguardismo. Capital de um país extremamente liberal, a cidade do rio Amstel não deixa a desejar: rotas e programas para diferentes gostos, numa ordenada e pacata urbe durante o dia que se transforma numa espiral de demência durante a noite. Uma maravilha. Em Amsterdã, meu amigo, a monotonia não tem vez.
Cortada por uma série de canais geométricos, caminhar por Amsterdã é toda uma experiência. As coloridas fachadas dos históricos edifícios holandeses contrastam com o rush das bicicletas turbinadas pelas ruas que as circulam. O caótico trânsito dos biciclos na capital é, verdadeiramente, coisa de louco. Diferentemente de Copenhagen, aqui há mais ciclistas que pedestres nas ruas – e se pedala como um demente: a toda e sem o menor respeito aos pobres forasteiros. Sob a constância de ser quase atropelado a cada dez minutos no Centro, pude percorrer quase toda a cidade, a pé, em apenas um dia: Amsterdã é, de fato, pequena.
Do frenesi das ruas do bairro de Nieuwezijde, onde hordas de turistas “continuam queimando tudo até a última ponta” nos coffeeshops locais (estabelecimentos autorizados pelo governo a comercializarem a erva), às tranqüilas vielas da Oudezijde, se pode ver de tudo. Desde um grupo de maravilhosas e esbeltas e sensacionais jovens holandesas recebendo a gritos as calouras de uma universidade, aos museus de fotografia (como a oficina da Foam) e da maconha (obviamente existe um); passando pelos inúmeros artistas de rua, Amsterdã não deixa de surpreender.
Cruzando o rio Amstel (que dá nome a uma excelente cerveja holandesa) para o Museumplein, visitar os famosos Rijksmuseum e Museu Van Gogh resulta em itinerário obrigatório. Com vastas coleções de dois grandes mestres da pintura, Rembrandt e Van Gogh, os museus de Amsterdã evocam o passado de um esplendor holandês, quando a potência dominava altas rotas de comércio ultramarino e inundava de luxo a capital. Uma passada pela impressionante Igreja Velha de Amsterdã também é ponto certo.
E quando a noite cai sobre o céu da capital, a luxúria come solta. Em meio ao vapor e à fumaça que exalam dos coffeeshops, o Bairro da Luz Vermelha (The Redlight District) se encandeia “da cor do pecado”, dando luz às vitrines mais famosas do mundo.
Exibindo-se para os potencias clientes que perambulam pelas ruas, as prostitutas de Amsterdã se fazem exuberantes e provocativas, numa diversidade tal de satisfazer qualquer clientela. Aparte o preço salgado combinado na hora, as profissionais do sexo de Amsterdã (com regulamentação rígida e carteira de trabalho) se exibem seminuas ou apenas em calcinhas “êquisossér” (e como diria Fausto Fawcett, calcinhas de morango, calcinhas de hortelã, calcinhas geladinhas, calcinhas anti-aéreas...). Hoje, em sua maioria, as godivas de Irajá das vitrines da Luz Vermelha parecem ser imigrantes do Leste Europeu, numa metáfora que é a realidade hoje da União Européia. Ainda assim, longa vida às Kátias Flávias de Amsterdã!
Paris foi um destino o qual relutei muito em incluir no plano de mochila. Cidade-clichê, por várias vezes considerei que seria melhor evitá-la e cogitei rotas alternativas pela Itália, Bélgica, norte da Espanha ou até mesmo a Sérvia. No entanto, antes de começar a parte solitária da viagem, acabei optando pelo plano original: Berlim – Amsterdã – Paris – Barcelona. E uma vez emergindo à Paris pelo acesso do metrô de Tuileries, às portas do Louvre, foram necessários poucos minutos pra descobrir que Paris era, de fato, cidade obrigatória. Assim, confirmando todos os clichês que se podem desenrolar de muitas outras histórias, não me resta nada senão afirmar: sim senhores, Paris é uma festa.
Grandiosa, opulenta e monumental, Paris é dessas cidades das quais não se escapa incólume. Instalado em um albergue de excelente custo-benefício, na região central da cidade, passar um fim-de-semana em Paris é privilégio pra poucos. Já em vias de quebrar financeiramente, minhas duas refeições diárias já se resumiam ao pão com queijo de padaria e iogurte, apesar de Paris não ser tão cara quanto eu imaginava. Apenas dois dias em Paris também se devia ao fato de que já estava pra expirar meu passe-livre de trem. Caberia exatamente o último dos 15 dias do Eurail a uma última larga viagem até Barcelona (já parte final da rota de volta a Madrid).
Dessa forma, rodando Paris a pé, desde cedo até altas horas da madrugada de um fim-de-semana chuvoso, pude ter as melhores impressões da cidade, pese o pouco tempo para explorá-la. Resumindo-me aos lugares e itinerários mais famosos, a primeira noite resolvi seguir a orla do rio Sena. Passando ao largo de museus, óperas, monumentos, castelos, pontes apinhadas de jovens e praças inteiras tomadas por artistas, músicos, patinadores, turistas e muitos bares de sábado à noite, segui desde a iluminada Catedral de Notre-Dame até a Torre Eiffel, que riscava de azul o céu nublado parisiense. Subindo até o topo da torre após um chá de fila, vislumbrar Paris desde o alto é verdadeiramente impressionante. Mais espantoso que isso é o vento e o frio da porra que faz lá em cima.
Com o único par de sapatos completamente encharcado, resolvi desafiar uma gripe em potencial e reservei a manhã de domingo pra um serviço que vinha postergando desde a Dinamarca e que, a essas alturas, já estava insuportável: dar um jeito na roupa suja. Carregando quilos e quilos de vestuário em vias de apodrecer na mochila, tomei vergonha na cara e encarei uma lavanderia automática pela primeira vez na vida. Com todas as instruções em francês e completamente vazia, me vi completamente perdido. Sem poder desistir, tomei o desafio como questão de orgulho e segui em frente. Após duas horas e meia pra conseguir entender a mecânica tecnológica (completamente simples, por sinal), acabei entupindo a máquina ao calcular errado o sabão e ter invertido os moldes, colocando o sabão no lugar do amaciador (porra vai entender os franceses! Amaciador?). Enfim, uma dor-de-cabeça completamente desnecessária, mas da qual eu só podia dar gargalhadas. Ao fim deu tudo certo, e minhas roupas encolheram um 30% de uma só vez. Resumo da ópera: só mesmo um idiota pra gastar quatro horas do total de seus dois dias em Paris brigando com uma máquina de lavar. Muito prazer, Daniel. 
E terminei o último dia em Paris voltando a rodar a cidade a pé. Seguindo o Louvre pelo Jardim das Tuleries cheguei à Praça da Concórdia e daí até a famosa Avenida Champs-Elysées, repleta de seus turistas bestas tomando café a dez euros. Monumental, a avenida me leva até o imponente Arco do Triunfo e daí para um metrô até a Bastilha, lugar dramático na história européia.
Após um passo por Montmartre, o final de noite de um domingo em Paris parece não ter outro endereço: o bom e velho Quartier Latin, por toda sua intensa e iluminada vida noturna. Foi aí que novamente amanheceu e eu vesti a mochila. Era hora de cruzar quase que a França inteira em direção a Barcelona, última escala do roteiro de bordo. Realmente, Paris é toda fodona.
Foi assim que me reencontrei com meus queridos amigos. O anfitrião, o “espanhol” Oriol Estrada, “el viejo Uris” tal qual é conhecido na eictv, mais sua noiva Natália e sua irmã, Cristina.
Com eles, a velha praga bucanerística que havia chegado à cidade um dia antes. Da estação, direto pro minúsculo povoado de Capellades, a setenta quilômetros de Barcelona, numa região pacata, montanhosa e leite-com-pêra onde reside a família Estrada Martos. Afinal, que melhor anfitrião senão o Uri, uma pessoa que precisa olhar o mapa de Barcelona a cada meia hora?
Instalados na casa de Cristina, um verdadeiro amor de pessoa, qual não foi a minha surpresa ao lembrar, na manhã seguinte, que os pais do Uri e da Cristina tinham uma padaria? E pronto: lá íamos nós, à eldorada “Forn ca la Xata”, a uma quadra de distância de casa, passar simplesmente as melhores e mais abastadas manhãs de nossas férias. Uma maravilha.
Desde as multidões que caminham através das Las Ramblas até a Praça Catalunha, um formigueiro humano que se espreita entre mercados e feiras, como o grandioso mercado de Sant Josep. Um passo (ou dois) pela histórica Ciutat Vella, e de pronto suas ruelas sinuosas nos levam até o famoso Bairro Gótico, esplendor arquitetônico que mescla história e ousadia.
A melhor opção do fim de tarde não é outra: os boêmios bairros de La Ribera e El Raval, também reduto de imigrantes, com intensa vida noturna de restaurantes e bares que oferecem um refresco ao intenso calor do verão catalão. Alta nota para a boa cerveja local: Estrela Damm, “a cerveja oficial do FC Barcelona”, brada o slogan.
E Barcelona é muito mais: desde as construções de Gaudí à arte de Mirò, a cidade é a trama concreta do surrealismo. Girando pela cidade, desde o excelente Museu Picasso até a Casa Milà, mais conhecida como “La Pedrera”, Barcelona apresenta todo seu arsenal arquitetônico. A imponência da inacabada igreja da Sagrada Família é um exemplo da obsessão catalã pela forma perfeita da imperfeição. Pra conta de nossa visita à cidade acabou faltando o famoso Park Güell. Pois bem, fica pra próxima.
Antes de fechar esses infindáveis parênteses, uma nota sobre o idioma catalão: completamente alucinante, a corrente língua da Catalunha é uma rara mescla de castelhano, latim romanesco, francês e português. Mas eu tenho uma teoria mais simples: o catalão nada mais é que um pomposo castelhano suburbano, cheios de erros de ortografia, preguiçoso e especialmente, com um plural infantil. Dorme com essa, Uri! Há!
No entanto, devo admitir que gostei mais de Madrid. No entanto, é muito provável que minha impressão se deve ao fato de ter visitado Barcelona já nos últimos suspiros de viagem, onde o esgotamento físico, mental e econômico já fazia variar os humores. Exatamente o oposto de Madrid, que foi por onde iniciamos a viagem.
Metáforas Visuais: 1) As várias festas de bairro de Barcelona, desde a apresentação do olodum leite-com-pêra catalão até o roquenrôu de uma banda que tocava mascarada e vestida de caveiras, ao estilo Kiss; 2) Ronaldo Fenômeno como garoto-propaganda de um tratamento contra a calvície. Quê isso, fera?
Justo. Muito Justo. Justíssimo!
Deixa-me ver se consigo explicar tudo isso. Estar no Terceiro Ano é como estar nove anos mais velho desde o Primeiro... Ou seis vezes mais sereno desde o Segundo... Chegar a estar três anos longe do país de origem, e destes, estar a dois sem nenhuma visita, é como distanciar-se há anos-luz da sua antiga vida... Bem, já não sei se é La Habana ou o Rio de Janeiro quem hoje mora em mim - e se há lugar pros dois lugares, então certamente haverá lugar pra outros mil. Enfim, é nessa geometria ilógica do tempo que a vida segue rumo em direção ao desconhecido. É certo que a euforia e a incerteza caminham lado a lado, mas até lá, não vejo muito problema: qualquer lugar está bom e qualquer tempo vai bem.
Não satisfeito em ser produtor, Léo também é tijucano e flamenguista, o que só piora sua situação. Ainda assim, o garoto tem feito bonito, e hoje convertido em meu calouro (o mundo dá voltas, crianças!), Riberô já é figura carimbada no Primeiro Ano da escola. Bem-vindo, camarada. Resta saber agora até que ponto chegará as sinistras intervenções de Victor Paschoal, o famoso “amigo de todos”, tal qual ficou conhecido na eictv. Pois tremeis, ledos inimigos! Em algum momento, ele voltará por seus Legendários.
A notícia do confronto histórico se espalhou rapidamente por todos os rincões da comunidade eictviana, e lá estávamos, boleiros ou não, todos a postos na noite de um sábado chuvoso, a espera do ônibus que nos levaria a uma histórica batalha campal.
E a noite do sábado, dia 6 de setembro, começou em grande estilo. Liderando uma torcida improvável, batucando no meu tan-tan como se estivesse a caminho de São Januário numa luta contra o rebaixamento, invadimos com cânticos chilenos e empolgação futebolística o estádio de futebol Pedro Marrero, para empurrar uma vez mais a seleção cubana rumo à África do Sul. No entanto, o desafio agora era muito mais complicado. Afinal, os Estados Unidos não eram a Antígua e Barbuda.
O jogo era histórico: era a primeira vez, desde a Revolução Cubana de 59, que a seleção gringa jogava em solo revolucionário. Uma partida tensa, mas que já não levava as mesmas tintas e birras políticas de anos anteriores. No entanto, o evento era algo signo de ser testemunhado. O palco, um estádio de futebol lotado com oito mil pessoas. Transmitido ao vivo pela televisão cubana e pela ESPN, o jogo valia muito mais por seu acontecimento histórico do que por ser um clássico esportivo. Munidos de rum e dos meus instrumentos de pagode, nossa animada torcida eictviana tentava animar o resto da torcida cubana, completamente desacostumada ao futebol.
Assim que foi um tremendo esforço, por exemplo, tentar começar as olas: os cubanos simplesmente não entendiam o porquê das olas e como e elas funcionavam. Após oito tentativas frustradas, desistimos. Adaptamos também uma série de cânticos chilenos que o Eduardo havia trazido dos estádios de Santiago. Eram ótimos, mas também não colou em uma torcida acostumada ao beisebol, onde quase não se canta. Porém, foi depois do primeiro gol norte-americano que a coisa complicou de vez: acostumado a torcer pelo Vasco, onde nos últimos anos sempre começamos as partidas perdendo e gritando “vamo-virá-vascô”, convoquei meus companheiros a seguir apoiando e incentivando a equipe cubana. Nosso esforço quase nos custou caro: os cubanos simplesmente não entendiam porque seguíamos gritando se o time estava perdendo e logo chegaram a uma conclusão “lógica”. Era simples: para eles, nós estávamos torcendo pelos americanos. E começaram a nos olhar feio, muito feio.
Assim que depois do intervalo, percebendo o mal-estar que se formava ao nosso redor, resolvemos então não apoiar mais a seleção cubana no segundo tempo, resignando-nos a acompanhar o jogo calados. Acabou que foi uma partida muito ruim e o placar ficou nisso: Cuba 0 x 1 Estados Unidos, conformando um placar que eu até diria honroso para o país.
Na tarde do domingo do dia 7 de setembro (no dia seguinte ao jogo histórico), Ike atingia o litoral norte de Cuba, entrando pela província oriental de Holguín, na outra ponta do país. Inicialmente um furacão de nível 3, Ike foi perdendo força enquanto avançava “sobre terra”, mas ainda assim com força devastadora o suficiente pra arruinar meio campo cubano. A extensão do mau tempo já se fazia sentir no outro lado do país, onde estávamos, e a chuva forte já desabava sobre a província havanera. Um país completo refém da previsão do tempo, num alerta generalizado sobre uma ameaça natural a qual os homens não têm o menor controle. É nessas horas em que você dimensiona um pouco a pequenez do homem ante a natureza, ainda que nos façamos de senhores do mundo em toda nossa soberbia. A experiência de viver sob a ameaça real de um furacão sobre a sua cabeça é uma tenebrosa lição de humildade.
A segunda-feira chegou com todo o país em alerta vermelho. Em todos os quatro canais da televisão estatal, notícias atualizadas sobre a trajetória do furacão, em meio aos alertas e constantes avisos de procedimento, comunicados da Defesa Civil. Já não era possível o acesso às imagens da parte central do país, inundada por uma tormenta interminável. No entanto, a aproximação do Ike da capital cubana já era questionada: progressivamente perdendo força, a expectativa passou a ser de que o furacão baixasse do nível 1 e se transformasse novamente em tormenta tropical, ventos não tão devastadores assim.
E eis que como num roteiro aristotélico, onde a curva dramática ascende ao clímax depois de uma aparente normalização, o Ike contraria todas as projeções e muda sua trajetória. Ao invés de seguir avançado sobre terra, passa então a rumar sudoeste e volta às águas cálidas do mar do Caribe. Esse movimento é aterrador. Sobre o mar quente, os furacões tendem a ganhar força e foi assim então que o fragilizado Ike voltou a ser uma grande ameaça às portas das províncias ocidentais de La Habana e Pinar del Rio. O alerta é generalizado: em menos de 30 horas o furacão estaria em nossa vizinhança, e estaria de volta ao nível 3, se especulava.
A terça-feira então começou com os preparativos. Contra o relógio, a medida de emergência adotada na eictv, orientada pela eficiente Defesa Civil, seria a divisão de estudantes e funcionários em dois grandes grupos, que se abrigariam nas duas áreas mais seguras do edifício: a sala de cinema e o estúdio de televisão. Enquanto Ike se aproximava, os estudantes do segundo ano aproveitavam o acontecimento e, como exercício de preparação para os exercícios de documentais, documentavam tudo o que se passava, em especial, o primeiro furacão de 70% dos estudantes presentes.
Acompanhando a aproximação do Ike desde as janelas do 328, eu, Manuela, Moabe, Llaima, Eduardo e Regina quebrávamos a angustiante espera (e também a lei-seca) com o pouco de vinho que havia sido surrupiado, enquanto a rádio cubana seguia atualizando a população sobre o rastro dos ventos. E assim foi até as cinco da manhã, quando impelidos pelo toque de recolher, deixamos o edifício dos estudantes em direção ao abrigo, prontos para passar um dia inteiro, se necessário, em um lugar fechado.
E assim foi que seguimos até as quatro da tarde, instalados no abrigo improvisado na sala de projeções da Glauber Rocha. Quando o olho do furacão já havia saído pelo Golfo do México, fomos liberados para deixar o abrigo e voltar, com cautela, à vida normal. No entanto, as rajadas de vento (de até 150 km/h) continuavam assustadoras, num sopro uníssono e constante que ecoava pelo edifício, ameaçando as janelas e inundando, parcialmente, alguns corredores. A chuva também era constante e caía lateralmente, como num spray de água latente que se movia com força em todas as direções.
A Escuela, ao fim, não sofreu danos graves aparte um par de janelas quebradas e corredores cheios de água. Os galhos quebrados e árvores arrancadas não chegaram a afetar diretamente nossa infra-estrutura, algo acima da média de uma construção cubana regular. No entanto, quatro vidas se perderam em todo o país, um número até ínfimo se considerado estatisticamente. Mas por outro lado, metade da produção agrícola do país se perdeu, e imaginem o efeito disso numa economia que se sustenta basicamente, além do turismo, nas exportações de café, açúcar e tabaco. Além disso, as muitas construções ruinosas existentes nas grandes cidades do país, ao exemplo do bairro de Centrohabana na capital, chegaram a desabar ou ficar seriamente mais avariadas depois do fenômeno. Aliás, a pior ameaça para as casas e edifícios em más condições não é propriamente o furacão, e sim quando o furacão passa e o sol volta a sair: encharcadas, muitas dessas ruínas não resistem ao “enxágüe” e então trincam, racham, desabam. E tão desolador quanto esse panorama pós-furacão é o silêncio que se produz quando a tormenta vai embora. É um silêncio ensurdecedor. Pouco a pouco é que a vida vai voltando ao normal.
Meu projeto se chama, provisoriamente, “El Cielo Bajo el Suelo” (“O Céu Debaixo do Chão”) e se trata de um road-movie entre Brasil, Bolívia e Chile. O roteiro atualmente se encontra em fase de argumento e ainda falta muito chão pela frente. Vamos ver até onde esse caminhão chega (pois a jornada é feita através de um caminhão de contrabando). O assunto e o tema do projeto permeiam os conceitos de “sobrevivência” e de “fuga”, tendo como principal metáfora visual uma improvável relação de amizade entre duas gerações distintas. Acho que tem alma pra seguir ganhando terreno.
Finalizando a trilogia do futebol cubano, o resultado não poderia ser outro. Eu, de muletas, após uma imprudente tesoura voadora de um zagueiro porto-riquenho em partida amistosa. A radiografia não deixou dúvidas: uma extensa fissura no perônio da perna esquerda. Cinco semanas de gesso e muita fisioterapia. Agora, futebol só em fevereiro. Vale lembrar que no momento do choque, eu usava uma camisa do glorioso Clube de Regatas Vasco da Gama.
Ah, e por fim, uma boa notícia! “Ernestos”, documentário que rodamos no fim de 2007 na província de Santa Cruz del Norte, aqui em Cuba, acaba de ganhar o prestigiado prêmio Caracol, outorgado pela UNEAC (União Nacional de Escritores e Artistas Cubanos). Levamos na categoria melhor curta documentário 2007/2008. O doc, do qual participei como roteirista, assistente de direção e roteirista de montagem (tal qual mencionei no post anterior) ainda será exibido no 30º Festival Internacional de Cine de Havana, a ser realizado agora em dezembro. Dá-lhe Ernestos!
Um abraço apertado à família, aos amigos e àqueles que continuam acreditando em si mesmos.